PRETA “GRANDE” (9 de Junho de 2016)
Tinha cerca de 17, 18 anos, e veio das ruas do Porto para o Parque da Terra Nova em Agosto de 2004. A PRETA (a cujo nome acrescentamos o adjectivo de “GRANDE” pois não só era mesmo grande, mas também para a distinguirmos da outra PRETA que já cá vivia, e que passou a ser a PRETINHA) era a companheira fiel e dedicada de um jovem, sem abrigo e toxicodependente, que recebia ajuda e acompanhamento, com alguma regularidade, de uma pessoa ligada à protecção dos animais. Apesar das suas enormes dificuldades, o jovem procurava cuidar da sua querida PRETA o melhor que lhe era possível, e que não lhe faltasse, a ela, o que muitas vezes lhe faltava a ele, nomeadamente alimentação, e, sobretudo, carinho. Quando este jovem teve de ser internado, em determinada altura, num hospital, por ter contraído o VIH (ou HIV), a sua única preocupação foi a PRETA, que ficaria sem ninguém que a cuidasse – e pediu à tal pessoa que os ajudava que acolhesse a sua querida Amiga, até que ele recuperasse o suficiente para poder voltar a cuidar dela. No entanto, não houve recuperação – e um dia, ao chegar ao hospital para o visitar e dar-lhe notícias da PRETA, como regularmente fazia, a pessoa em questão constatou que o jovem tinha falecido. Fomos então contactados no sentido de acolher a PRETA, visto que a sua vida, confinada num pequeno T1, tão diferente da antiga liberdade das ruas e sem a companhia do seu protegido – mais que protector, de facto, embora, e nas suas limitações, também o fosse – estava a causar-lhe grande depressão. E para aqui veio, a princípio muito desconfiada e pouco sociável, mas depois, gradualmente, cada vez mais adaptada, e estabelecendo relações mais próximas com os humanos e com os outros cães. Durante muito tempo, contudo, a PRETA – que entretanto se tornou numa grande apreciadora de festas e de carinhos por parte da Equipa e de visitantes do Parque – manteve uma característica curiosa… e certamente decorrente do facto de, ao longo de vários anos, se ter habituado a proteger a sua escassa comida e do seu companheiro humano, e que era, além do facto de não admitir partilhar as refeições com nenhum outro cão, carregar, ela própria, com a sua tigela de ração, na boca, para dentro do alojamento, e aguardar, ali, que lhe fechassem a porta para, então, começar a comer! Quando foi tirada a fotografia que escolhemos para esta homenagem, a PRETA – que, até então, nunca tinha apresentado quaisquer problemas de saúde, nem mesmo os mais comuns – estava em franca recuperação de um primeiro AVC, sofrido em 2014. Essa recuperação, tão rápida como espectacular, manteve-se inalterada até ao ano seguinte, em que a PRETA sofreu um novo AVC, desta feita mais intenso. Mesmo assim, recuperou, ainda, bastante, mas, apesar do acompanhamento veterinário que continuou a receber constantemente, as sequelas deixadas por este segundo episódio foram-se agravando, e a PRETA acabou por, gradualmente, perder a mobilidade, tendo passado, ao longo do corrente ano, a receber o mesmo tipo de cuidados que se prestam aos cães paraplégicos e incontinentes, sob vigilância permanente. Como curiosidade, não podemos deixar de referir que a nossa “gorda”, que foi sempre voraz, manteve inalterado o seu grande apetite até ao fim – e, mesmo já incapacitada e quase cega, reagia de imediato a qualquer toque como se lhe estivéssemos a oferecer comida, ou um biscoitinho! Mas… chegou o momento, e, quando chegou, foi com toda a serenidade, como gostaríamos que todos esses momentos chegassem – e, no caso da PRETA, com a companhia e o carinho daqueles que dela cuidaram durante estes doze anos, debaixo deste tecto que foi o seu… depois do tecto de estrelas que tinha partilhado com o seu anterior Companheiro, ao encontro de quem, agora, foi. Bem os vemos e sentimos brilhar juntos, a ambos, mais uma vez, e sabemos que estão felizes por se terem reunido – como também sabemos que a PRETA assegurou ao seu Companheiro que também foi feliz, aqui, com todos nós, e que para sempre fará parte integrante da Alma de Cão deste lugar… onde jamais esqueceremos o seu andar bamboleante e a sua “cara prazenteira”… nem o seu ar determinado, com a tigela da ração na boca, à espera que lhe fechássemos a porta para começar a comer!